"Há desejos na vida que não entendemos e não sabemos explicar", revela Paula Lins, de 39 anos. Há um mês, reassumiu a identidade feminina após uma série de reviravoltas. Ainda garoto, aos oito anos, já se interessava por atividades consideradas de meninas à época, como brincar de cozinha. Também se sentia atraído por outros meninos, mas ainda não entendia. Aos 12, saiu de casa e durante seis anos tomou hormônios femininos.

Aos 24 anos, Paula abandonou o nome de Clécio Gomes Araújo e passou a se identificar como mulher. Deixou a cidade de Conceição do Coité, no semiárido baiano, e morou em Salvador e na Itália. Quinze anos depois, de volta à cidade natal, retomou a identidade masculina. Foi abraçado por uma instituição religiosa, mas continuava sentindo-se à margem da sociedade. "Desisti não pelo sexo, mas pela falta de oportunidades", disse sobre a escolha de recuperar os traços de mulher.

Sem dinheiro e ofertas de emprego no mercado formal, Paulinha Lins, como é conhecida, se reencontrou com a atividade que fez parte da sua vida desde que se assumiu travesti pela primeira vez. "Estou em Salvador há 15 dias. Voltei a fazer programa na orla. Hoje, está bem mais difícil. A situação está terrível. Está pior do que quando comecei", revela.

Ainda com identidade masculina, saiu de casa aos 12 anos. Morava com os pais e mais 10 irmãos. Atraído por garotos, sentia-se diferente. "Eu estava entre os três irmãos mais novos. Eles tinham vergonha de andar comigo, me achavam afeminado. Meu pai me chamava de 'viado'. Entendo que as pessoas naquele tempo tinham dificuldade de aceitar", reflete. Sem perspectivas de futuro, decidiu ir para a sede do município morar com uma irmã.

"Era uma vida de muita dificuldade. Chegamos a passar fome. Decidi sair para estudar e trabalhar, mas não encontrava emprego. Passei a fazer atividades domésticas em uma casa. Uma mulher muito boa me deu essa oportunidade", disse. Nesse período, relata que encontrou uma prima que era travesti. Identificou-se com a história e passou a usar hormônios femininos. Foram seis anos usando as substâncias, até decidir ir para Salvador.

"Minha prima me convidou para passar o réveillon lá. Uma amiga dela fazia programa na Manoel Dias [bairro nobre de Salvador, na Pituba] e me convidou. Fui na curiosidade. Lá, ganhei numa noite o que ganhava em um mês em Coité: R$ 60. Isso em 1999", revela. Em 2003, recebeu a proposta para ir para a Europa. "Era tipo uma cafetina. Ela mandava para fora do Brasil, mas cobrava um preço bem caro. Eram € 120 mil. Em seis meses fazendo programas, consegui pagar o valor e juntar dinheiro para comprar uma casa [em Coité]", informa.

Os programas na Europa eram feitos na Itália. Em um mês ele conta que conseguia juntar até R$ 7 mil. Entre idas e vindas, fixou-se definitivamente no Brasil em 2008. "O dinheiro era alto, mas o sofrimento também era grande. Foi terrível. Fui presa três, quatro vezes. Às vezes, não consegui correr. Era humilhante. Tinha um objetivo e queria pagar esse preço", conta. Lá, conseguiu o dinheiro necessário para colocar uma prótese de silicone. Era um sonho.
Há um ano e quatro meses, após retornar para Conceição do Coité, sentiu-se atraída pelos ensinamentos e cuidados oferecidos por uma igreja evangélica. Diante de uma vida de prostituição, uso de drogas e desilusões amorosas, refletiu sobre os rumos da própria vida. "Me senti acolhida. Fui por conta própria. Comecei a orar e a buscar por Deus", detalha.

Abrigada pela igreja, cortou os cabelos e depois de alguns meses fez uma cirurgia para retirada da prótese de silicone. "Até tive um relacionamento com uma mulher, mas ela não aguentou os comentários e acabou com tudo", conta. O ex-companheiro também aderiu à religião e casou-se com outra mulher. "Ficamos juntos durante 15 anos", lembra.

Clécio, como voltou a ser chamado, disse que aceitou a Jesus. Nas ruas, entretanto, sentia-se renegada pelas pessoas. "Sempre me viam com um olhar de desconfiança. Não tinha emprego, não tinha dinheiro e comecei a depender da família. A igreja me ajudou muito, mas não pude continuar", atesta.

Há um mês, sem dinheiro e expectativas de futuro, deixou a religião. Voltou para Salvador há cerca de 15 dias e, como saída para os problemas financeiros, voltou à prostituição. "Sem seios e cabelos está mais difícil. Eu era muito bonita e agora estou meio perdida. Durmo e acordo me perguntando como será o dia seguinte. Tenho esperança de algo melhor, mas ainda não sei como", destaca. Pessoalmente, preserva um sonho. "Tenho vontade de ter um filho. É um desejo que não morreu. Agora, o futuro é quem vai dizer", estima.

'Batalhão de conflitos' - Leandro Colling, um dos criadores e coordenadores do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma que as reversões de gênero não são corriqueiras. "Pelas pessoas que conheço, não é comum uma pessoa fazer o retorno da transição. Sabemos que acontece, mas é difícil. O certo é que essa reversão deve ser respeitada, desde que tenha sido feita pela própria vontade. Esses retornos têm que ser respeitados, desde que tenham ocorrido de forma livre e espontânea", defende.

Colling afirma que, reservadas as particularidades de cada caso, o público LGBT enfrenta pressões sociais dolorosas. "É um entorno social que não respeita as diversidades, as transições. Nenhum hétero é o mesmo ao longo da vida, por exemplo. Em geral, respeita-se essas transições, a não ser que envolvam contravenções. Já as pessoas trans não podem fazer o querem. Isso gera um batalhão de conflitos, que levam até mesmo a suicídios. Tudo isso ocorre por conta de uma cultura social que não respeita a vontade das pessoas. Querendo a sociedade ou não, as pessoas são diversas”, destaca.

Diante do convívio permanente com o preconceito, que reflete inclusive na inserção no mercado de trabalho formal, Colling conta que a prostituição desponta para muitas travestis e transexuais como saída.

"Não sei se posso dizer que é comum [isso ocorrer], mas é muito recorrente. As pessoas acabam na prostituição, porque não têm outro lugar. A escola bota para fora, a família bota para fora, a sociedade bota para fora. Não quero que pareça uma leitura moralista. São trabalhadoras do sexo e, inclusive, deveriam ter os mesmos direitos", reflete. Independentemente do contexto, ressalta: "Cada um tem que ter a sua história respeitada". (G1/CN)