O corpo de Adailton Carvalho Barbosa, 43 anos, foi encontrado dentro do carro dele, na zona rural de Santa Bárbara, no Centro-Norte do estado, no fim de outubro de 2016. Ele foi sequestrado, colocado no veículo por bandidos, o carro incendiado e Adailton morreu carbonizado. Quando o corpo foi encontrado havia um documento com ele, mas faltava a confirmação da perícia. A identificação pelas impressões digitais era impossível nesse caso. A família não tinha prontuários odontológicos para a identificação por meio da arcada dentária. A saída foi um tanto inusitada: ele foi identificado pelo sorriso.

“A família trouxe uma fotografia de boa qualidade e conseguimos identificá-lo”, conta o perito odonto-legal Celso Danilo Fonseca Vilas Boas, responsável pela 1ª Coordenadoria Regional de Polícia Técnica (Feira de Santana), uma unidade do Departamento de Polícia Técnica que mais usa essa técnica.

Na prática, trata-se de uma comparação entre o sorriso de uma pessoa em uma foto e o do corpo. Com a ajuda de um programa de edição de imagens, os peritos fazem uma espécie de ‘decalque’ da linha do sorriso – tanto na foto cedida pela família quanto na foto dos dentes do corpo. É esse desenho que vai ajudar a concluir se o sorriso é da mesma pessoa ou não. Segundo Celso Danilo, somente em Feira de Santana, cerca de dez pessoas já foram identificadas assim, desde 2014. Feira é um dos poucos locais do estado onde essa técnica é aplicada: em Salvador, por exemplo, ainda não é adotada.

“Com o advento da fotografia e de redes sociais, selfies e câmeras cada vez melhores, a gente pode ter fotografias de sorriso com vários detalhes, que nos permitem fazer um confronto para comparar com outro”, diz. Segundo Celso Danilo, quando a pessoa está sorrindo, há características como alinhamento, quantidade de dentes e posição deles – se tem um mais alto ou mais baixo, por exemplo – que podem ser vistas. “Há até uma linha do sorriso que forma uma característica única. A variação da dentição não dá para ser igual entre pessoas diferentes”, diz.

Baixo custo - Uma das principais vantagens, segundo o DPT, é justamente o baixo custo. Basta ter a foto em alta qualidade e um programa de edição de imagens. Já um exame de DNA pode chegar a custar R$ 10 mil. Além disso, o resultado da identificação pela fotografia sai mais rápido que outros exames. O sorriso pode ser comparado em até dois ou três dias e há testes de DNA que levam uma semana para ficar prontos.

“Quanto menos tempo gastarmos para fazer a identificação e liberar para o sepultamento, melhor. É importante e a gente tenta, ao máximo, diminuir esse tempo”. A identificação por meio do sorriso faz parte de um perfil biológico que é traçado daquele corpo, segundo o perito João Pedro Pedrosa. “O método faz parte de um estudo antropológico do corpo, no qual também é definido gênero, idade, estatura estimada... A partir do confronto de todas essas informações, a gente vai chegar a essa conclusão”, explica.

Um ponto importante é que a foto tenha alta resolução – e que a pessoa esteja, de fato, sorrindo. Ou seja: uma foto 3x4, por exemplo, não funciona. Mas, para que a fotografia ajude, é preciso levar em consideração a situação do corpo. Se os dentes forem afetados de alguma forma – em um acidente automobilístico, por exemplo, em que a pessoa perde os dentes da frente – não dá para usar a técnica.

“Em alguns casos, o corpo pode ser queimado, mas os dentes são mantidos. Em outros, eles são destruídos. Mas, em situações em que, normalmente, o tecido humano se perde com facilidade, a tendência é que os dentes resistam a essas ações, inclusive a temperaturas mais altas”, continua João Pedro. Inclusive, nada impede que os métodos sejam combinados – embora a identificação por meio das arcadas e a através de fotografias se bastem, se as duas estiverem disponíveis, elas podem ser aliadas.
Especialista explica que quando a pessoa está sorrindo, há características como o  alinhamento, a quantidade de dentes e a posição deles que podem ser analisadas